quinta-feira, 1 de março de 2012

GVT vende planos de internet e não cumpre com velocidade prometida, dizem clientes

Uma internauta, que se identificou como Maria José, revelou ao site ClickPB que contratou em João Pessoa (PB) os serviços da empresa de telefonia e internet GVT e está insatisfeita por ter contratado um plano de 15 MB e ao fazer um teste descobriu que está recebendo uma velocidade de apenas 68,94 Kbps, conforme revela a imagem abaixo.
velocimetro
O curioso, segundo a suposta cliente, é que quando o teste é feito através do site indicado pela GVT, a velocidade que aparece é bem maior.
testegvt
As queixas de má qualidade no serviço da GVT se multiplicam na internet e no YouTube há um video no qual um cliente desabafa sua indignação: “Fazendo os testes da GVT 15MB, é isso que tenho. Isso ai foi depois que o tecnico veio aqui, nem ele sabe porque está assim. Nao sou o único a estar com esse problema. Antes de alguem vir aqui, meu upload estava 300k”, exclamou.
Fonte: ClickPB


fonte:http://linkpb.net/?p=1676

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

CEU - O Pinheirinho da UnB

A desocupação da Casa do Estudante Universitário - CEU da Universidade de Brasília - UnB foi forçosa, desumana, com interesses escusos ou pouco nobres, e deixou sequelas, tal como a desocupação da área do Pinheirinho, que antes abrigava algo em torno de 6 mil pessoas.

Forçosa

CEU - UnB
Dia-a-dia nos ligavam, batiam nas portas, nos ameaçavam; diziam de diversas formas: saiam!!!
Na mídia: O problema são os irregulares!!!
Pinheirinho
Desde 2004 se trava a luta jurídica e a ocupação de um terreno vazio, até então. O sr Naji Nahas pede o terreno, que nem dele era, de volta. Reintegração. As famílias não tinham para onde ir.
Na mídia: O problema são os invasores, os drogados, o tráfico de drogas!!!

Desumana

CEU - UnB
Tiraram o transporte intra-campus, tiraram o laboratório de informática, tiraram a manutenção dos prédios, cortaram benefícios "em troca" da saída dos prédios, dia após dia, mais mais coisas ocorriam, até a interdição das linhas de ônibus que passavam na CEU queriam suspender com a interrupção do tráfego nas ruas da CEU. Pouco a pouco uns iam embora, os que podiam e os que não podiam, uns voltavam, não é fácil alugar algum imóvel com 510 reais. Os que ficavam, ficavam loucos. A CEU cada vez mais suja. Cada vez mais cobrança da DDS/DAC/Reitoria. As obras iam ocorrendo debaixo e em cima dos nossos narizes. As goteiras nos quartos não eram mais de água da chuva, eram de esgoto. Os apartamentos eram invadidos e chaveiros trocavam nossas fechaduras com pessoas morando. Cortavam a luz destes apartamentos com chaves novas. Soldaram as portas de emergência. Colocaram seguranças na entrada para impedir a entrada de irregulares(estudantes calouros sem moradia, além de outros estudantes sem vínculo com o programa, mas que emergencialmente precisavam de moradia).
Pinheinho
Durante anos, a batalha foi judicial. Mas a lei serve para muita coisa, inclusive uma lei municipal de São José dos Campos impedia o povo que ali morasse de frequentar hospitais, escolas, e todo tipo de serviço público, sendo quem solicita morador do Pinheirinho. A lei foi derrubada, mas as humilhações: não! De juiz em juiz, de descaso à descaso, de político a político, a coisa rolava como que jogar, tal como ganhar e perder. Quem perdia o sono, a vida, como catador, como pedreiro, faxineira, entre tantos que trabalhavam nas mais diversas funções, enfim, eram os moradores do Pinheirinho. Na reitegração de posse do terreno do Pineheirinho, 40min, 2mil policiais, blindados, helicóptero, cachorros, e todo mundo na rua. Tratores, e todo mundo sem casa, sem roupa, sem vida.


Interesses escusos ou pouco nobres

CEU - UnB
A tão falada CEU foi tema relatório técnico pela própria UnB, que atestou que reformar seria mais caro e inviável do que construir novos blocos. Pior, já havia dinheiro e projeto para a construção de novos blocos, 600 vagas para estudantes. 600 novas vagas. E a CEU tinha 368 vagas. E a reforma andou, para "beneficiar os estudantes"; mais cara do que a encomenda, mais de 12milhões de reais, muitos estudantes expulsos, e a obra ainda nem começou. E os novos prédios muito menos. Curioso. Porque tanta pressa? Porque reformar antes de construir? Porque reformar se é mais caro? Porque reformar se é inviável? São muitas perguntas... Mas é certo que, se o interesse é beneficiar os estudantes com uma nova estrutura para abrigar mais e melhor os estudantes oriundos de outras regiões do Brasil, e de baixa renda, porque tanta pressa em expulsar, ou desocupar a CEU, se havia condições de remanejo dos estudantes para os blocos novos, se houvessem blocos novos...
Eu fui preso depois de colocar fogo, junto com um colega de apartamento. Fui preso na semana em que começaram a demolir o segundo andar do Bloco B da CEU. Eu morava no primeiro andar. Eu não tinha bolsa da UnB. Trabalho para me sustentar em Brasília, trabalho como garçom à noite. Chegava nesse dia por volta das 4h da manhã em casa. Às 7h os trabalhos de demolição acordam a gota de cai no teto que me cobre a cabeça perturbada com tanto barulho. Eu penso, penso. Irritado. Dormindo. Em pé. Saio. Questiono. Esbravejo. Obra em condomínio tem isolamento acústico, canaleta de entulho até o conteiner. Obra em condomínio tem isolamento de segurança e conteiner não fica na beira da escada da saída de incêndio. Me lembraram, sou pobre, a CEU não é nossa, é ordem, já tinha que ter ido embora. Pra onde? Não importa. É ordem. Esbravejei. Um amigo me traz uma pet com combustível, nem pensei, joguei no conteiner cheio de entulho, lixo. Ele bota fogo. Os seguranças da UnB chamam a polícia, diziam que o fogo tinha que rolar, o pau tinha que comer, a gente tinha que aprender. Ficamos com medo. Fomos pro apartamento 204, no mesmo bloco. Entramos nos armários. Os doces policiais nos acolheram com algemas sintilantes que marcaram a minha vida e o meu pulso. Quanto mais eu reclamava, mais apertava. Doce soldado Sousa.
Pinheirinho
Naji Nahas é o cara. O terreno que era do Estado de São Paulo agora é dele. O vice do governador do Estado é mesmo partido que o irmão do presidente do Tribunal de Justiça de SP. O Partido do governador é o mesmo que o do prefeito. O prefeito é o mesmo que recebeu em sua campanha dinheiro de empresas do ramo imobiliário. A desocupação do terreno foi em 40min. As pessoas estão na rua. Muitos foram presos. 3 pessoas foram mortas. Não interessa. Interessa que o terreno foi entregue. A polícia, doce polícia, profissional. Bate, atira, mata, não se interessa, cumpre ordens, as mesmas que interessam Naji Nahas, o governador, o prefeito, o juiz. Quanto mais se reclama, mais se apanha.

Sequelas

CEU - UnB
Amigos estão doentes. Eu nem sei como sobrevivi.
Pinheirinho
Muita gente na rua, nas igrejas, nas quadras em qualquer lugar. Nem sabem como sobreviveram.

Ninguém tem nada e todo mundo tem fome

Ninguém lê este site, então digo: de propriedade, a justiça se faz à mão!!! Os ricos tem a polícia, tem dinheiro, tem imprensa, tem a Igreja, tem o exército, e um monte de pobre que acredita na Igreja, na imprensa, na polícia, no exército. Não fosse um monte de gente sem casa, um monte-tipo 6mil, ocupar um terreno vazio e ser brutalmente tirado deste lugar, em benefício de um mega empresário, nunca se falaria disso da propriedade social ou de direitos humanos, ou ainda do direito de moradia!!! O pior é que não podemos nos armar, o Estado é que tem o monopólio da força. A nós, nada!!! Na história brasileira o único movimento armado que não obteve derrotas do governo brasileiro foi a Coluna Prestes, mas também, fugiam, se esquivavam, e não podiam bater de frente, não havia condições. E hoje: tão pouco!!! Não somos nada!!! Pobre, preto, é pra periferia, pra trabalhar no McDonald`s, pra trabalhar em qualquer canto, ganhar pouco, morar mal, viver na miséria e se calar!!! Pobre quer assender socialmente? Estuda, vira força de trabalho qualificada, mas continua ficando quieto... O Brasil é um salve-se quem puder!!!
Eu tenho um semestre duro pela frente. Um processo pra responder. Pouco dinheiro pra me manter. Muito trabalho pra procurar e fazer. O futuro é uma incógnita. O pessoal do Pinheirinho é gente como eu, que sofre por pouco, um pouco que se chama Direitos Humanos!

sábado, 21 de janeiro de 2012

12 MITOS DO CAPITALISMO

12 MITOS DO CAPITALISMO

Guilherme Alves Coelho
Odiário – Portugal
07.Jan.2012

São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia burguesa se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos.

Um comentário amargo, e frequente após os períodos eleitorais, é o de que “cada povo tem o governo que merece”. Trata-se de uma crítica errónea, que pode levar ao conformismo e à inércia e castiga os menos culpados. Não existem maus povos. Existem povos iletrados, mal informados, enganados, manipulados, iludidos por máquinas de propaganda que os atemorizam e lhes condicionam o pensamento. Todos os povos merecem sempre governos melhores.

A mentira e a manipulação são hoje armas de opressão e destruição maciça, tão eficazes e importantes como as armas de guerra tradicionais. Em muitas ocasiões são complementares destas. Tanto servem para ganhar eleições como para invadir e destruir países insubmissos.

São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia capitalista se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. Foram criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições familiares, a doutrina das igrejas, etc. (*)

Apresentam-se neste texto, sucintamente, alguns dos mitos mais comuns da mitologia capitalista.

• NO CAPITALISMO QUALQUER PESSOA PODE ENRIQUECER À CUSTA DO SEU TRABALHO.
Pretende-se fazer crer que o regime capitalista conduz automaticamente qualquer pessoa a ser rica desde que se esforce muito.
O objectivo oculto é obter o apoio acrítico dos trabalhadores no sistema e a sua submissão, na esperança ilusória e culpabilizante em caso de fracasso, de um dia virem a ser também, patrões de sucesso.
Na verdade, a probabilidade de sucesso no sistema capitalista para o cidadão comum é igual à de lhe sair a lotaria. O “sucesso capitalista” é, com raras excepções, fruto da manipulação e falta de escrúpulos dos que dispõem de mais poder e influência. As fortunas em geral derivam directamente de formas fraudulentas de actuação.
Este mito de que o sucesso é fruto de uma mistura de trabalho afincado, alguma sorte, uma boa dose de fé e depende apenas da capacidade empreendedora e competitiva de cada um, é um dos mitos que têm levado mais gente a acreditar no sistema e a apoiá-lo. Mas também, após as tentativas falhadas, a resignarem-se pelo aparente falhanço pessoal e a esconderem a sua credulidade na indiferença. Trata-se dos tão apregoados empreendedorismo e competitividade.

• O CAPITALISMO GERA RIQUEZA E BEM-ESTAR PARA TODOS
Pretende-se fazer crer que a fórmula capitalista de acumulação de riqueza por uma minoria dará lugar, mais tarde ou mais cedo, à redistribuição da mesma.
O objectivo é permitir que os patrões acumulem indefinidamente sem serem questionados sobre a forma como o fizeram, nomeadamente sobre a exploração dos trabalhadores. Ao mesmo tempo mantêm nestes a esperança de mais tarde serem recompensados pelo seu esforço e dedicação.
Na verdade, já Marx tinha concluído nos seus estudos que o objectivo final do capitalismo não é a distribuição da riqueza, mas a sua acumulação e concentração. O agravamento das diferenças entre ricos e pobres nas últimas décadas, nomeadamente após o neoliberalismo, provou isso claramente.
Este mito foi um dos mais difundidos durante a fase de “bem-estar social” pós-guerra, para superar os estados socialistas. Com a queda do émulo soviético, o capitalismo deixou também cair a máscara e perdeu credibilidade.

• ESTAMOS TODOS NO MESMO BARCO.
Pretende-se fazer crer que não há classes na sociedade, pelo que as responsabilidades pelos fracassos e crises são igualmente atribuídas a todos e, portanto pagas por todos.
O objectivo é criar um complexo de culpa junto dos trabalhadores que permita aos capitalistas arrecadar os lucros enquanto distribuem as despesas por todo o povo.
Na verdade, o pequeno número de multimilionários, porque detém o poder, é sempre autobeneficiado em relação à imensa maioria do povo, quer em impostos, quer em tráfico de influências, quer na especulação financeira, quer em off-shores, quer na corrupção e nepotismo etc. Esse núcleo, que constitui a classe dominante, pretende assim escamotear que é o único e exclusivo responsável pela situação de penúria dos povos e que deve pagar por isso.
Este é um dos mitos mais ideológicos do capitalismo ao negar a existência de classes.

• LIBERDADE É IGUAL A CAPITALISMO.
Pretende-se fazer crer que a verdadeira liberdade só se atinge com o capitalismo, através da chamada autorregulação proporcionada pelo mercado.
O objectivo é tornar o capitalismo uma espécie de religião em que tudo se organiza em seu redor e assim afastar os povos das grandes decisões macro-económicas, indiscutíveis. A liberdade de negociar sem peias seria o máximo da liberdade.
Na verdade, sabe-se que as estratégias político-económicas, muitas delas planeadas com grande antecipação, são quase sempre tomadas por um pequeno número de pessoas poderosas, à revelia dos povos e dos poderes instituídos, a quem ditam as suas orientações. Nessas reuniões, em cimeiras restritas e mesmo secretas, são definidas as grandes decisões financeiras e económicas conjunturais ou estratégicas de longo prazo. Todas, ou quase todas essas resoluções, são fruto de negociações e acordos mais ou menos secretos entre os maiores empresas e multinacionais mundiais. O mercado é, pois, manipulado e não autorregulado. A liberdade plena no capitalismo existe de facto, mas apenas para os ricos e poderosos.
Este mito tem sido utilizado pelos dirigentes capitalistas para justificar, por exemplo, intervenções em outros países não submissos ao capitalismo, argumentando não haver neles liberdade, porque há regras.

• CAPITALISMO IGUAL A DEMOCRACIA.
Pretende-se fazer crer que apenas no capitalismo há democracia.
O objectivo deste mito, que é complementar do anterior, é impedir a discussão de outros modelos de sociedade, afirmando não haver alternativas a esse modelo e todos os outros serem ditaduras. Trata-se mais uma vez da apropriação pelo capitalismo, falseando-lhes o sentido, de conceitos caros aos povos, tais como liberdade e democracia.
Na realidade, estando a sociedade dividida em classes, a classe mais rica, embora seja ultraminoritária, domina sobre todas as outras. Trata-se da negação da democracia que, por definição, é o governo do povo, logo da maioria. Esta “democracia” não passa, pois de uma ditadura disfarçada. As “reformas democráticas” não são mais que retrocessos, reacções ao progresso. Daí deriva o termo reaccionário, o que anda para trás.
Tal como o anterior, este mito também serve de pretexto para criticar e atacar os regimes de países não-capitalistas.

• ELEIÇÕES IGUAL A DEMOCRACIA.
Pretende-se fazer crer que o acto eleitoral é o sinônimo da democracia e esta se esgota nele.
O objectivo é denegrir ou diabolizar e impedir a discussão de outros sistemas político-eleitorais em que os dirigentes são estabelecidos por formas diversas das eleições burguesas, como por exemplo, pela idade, experiência, aceitação popular etc.
Na verdade, é no sistema capitalista, que tudo manipula e corrompe, que o voto é condicionado e as eleições são actos meramente formais. O simples facto da classe burguesa minoritária vencer sempre as eleições demonstra o seu carácter não-representativo.
O mito de que, onde há eleições há democracia, é um dos mais enraizados, mesmo em algumas forças de esquerda.

• PARTIDOS ALTERNANTES IGUAL A ALTERNATIVOS.
Pretende-se fazer crer que os partidos burgueses que se alternam periodicamente no poder têm políticas alternativas.
O objectivo deste mito é perpetuar o sistema dentro dos limites da classe dominante, alimentando o mito de que a democracia está reduzida ao acto eleitoral.
Na verdade, este aparente sistema pluri ou bipartidário é um sistema monopartidário. Duas ou mais facções da mesma organização política, partilhando políticas capitalistas idênticas e complementares, alternam-se no poder, simulando partidos independentes, com políticas alternativas. O que é dado escolher aos povos não é o sistema que é sempre o capitalismo, mas apenas os agentes partidários que estão de turno como seus guardiões e continuadores.
O mito de que os partidos burgueses têm políticas independentes da classe dominante, chegando até a ser opostas, é um dos mais propagandeados e importantes para manter o sistema a funcionar.

• O ELEITO REPRESENTA O POVO E POR ISSO PODE DECIDIR TUDO POR ELE.
Pretende-se fazer crer que o político, uma vez eleito, adquire plenos poderes e pode governar como quiser.
O objectivo deste mito é iludir o povo com promessas vãs e escamotear as verdadeiras medidas que serão levadas à prática.
Na verdade, uma vez no poder, o eleito autoassume novos poderes. Não cumpre o que prometeu e, o que é ainda mais grave, põe em prática medidas não enunciadas antes, muitas vezes em sentido oposto e até inconstitucionais. Frequentemente, são eleitos por minorias de votantes. A meio dos mandatos já atingiram índices de popularidade mínimos. Nestes casos de ausência ou perda progressiva de representatividade, o sistema não contempla quaisquer formas constitucionais de destituição. Esta perda de representatividade é uma das razões que impede as “democracias” capitalistas de serem verdadeiras democracias, tornando-se ditaduras disfarçadas.
A prática sistemática deste processo de falsificação da democracia tornou este mito um dos mais desacreditados, sendo uma das causas principais da crescente abstenção eleitoral.

• NÃO HÁ ALTERNATIVAS À POLÍTICA CAPITALISTA.
Pretende-se fazer crer que o capitalismo, embora não sendo perfeito, é o único regime político-económico possível e, portanto, o mais adequado.
O objectivo é impedir que outros sistemas sejam conhecidos e comparados, usando todos os meios, incluindo a força, para afastar a competição.
Na realidade, existem outros sistemas político-económicos, sendo o mais conhecido o socialismo cientifico. Mesmo dentro do capitalismo, há modalidades que vão desde o actual neoliberalismo aos reformistas do “socialismo democrático” ou socialdemocrata.
Este mito faz parte da tentativa de intimidação dos povos de impedir a discussão de alternativas ao capitalismo, a que se convencionou chamar o pensamento único.

• A AUSTERIDADE GERA RIQUEZA
Pretende-se fazer crer que a culpa das crises económicas é originada pelo excesso de regalias dos trabalhadores. Se estas forem retiradas, o Estado poupa e o país enriquece.
O objectivo é fundamentalmente transferir para o sector público, para o povo em geral e para os trabalhadores, a responsabilidade do pagamento das dividas dos capitalistas. Fazer o povo aceitar a pilhagem dos seus bens na crença de que dias melhores virão mais tarde. Destina-se também a facilitar a privatização dos bens públicos, “emagrecendo” o Estado, logo “poupando”, sem referir que esses sectores eram os mais rentáveis do Estado, cujos lucros futuros se perdem desta forma.
Na verdade, constata-se que estas políticas conduzem, ano após ano, a um empobrecimento das receitas do Estado e a uma diminuição das regalias, direitos e do nível de vida dos povos, que antes estavam assegurados por elas.

• MENOS ESTADO, MELHOR ESTADO.
Pretende-se fazer crer que o sector privado administra melhor o Estado que o sector público.
O objectivo dos capitalistas é “dourar a pílula” para facilitar a apropriação do património, das funções e dos bens rentáveis dos estados. É complementar do anterior.
Na verdade o que acontece em geral é o contrário: os serviços públicos privatizados não só se tornam piores, como as tributações e as prestações são agravadas. O balanço dos resultados dos serviços prestados após passarem a privados é quase sempre pior que o anterior. Na óptica capitalista, a prestação de serviços públicos não passa de mera oportunidade de negócio. Este mito é um dos mais “ideológicos” do capitalismo neoliberal. Nele está subjacente a filosofia de que quem deve governar são os privados e o Estado apenas dá apoio.

• A ACTUAL CRISE É PASSAGEIRA E SERÁ RESOLVIDA PARA O BEM DOS POVOS.
Pretende-se fazer crer que a actual crise económico-financeira é mais uma crise cíclica habitual do capitalismo e não uma crise sistémica ou final.
O objectivo dos capitalistas, com destaque para os financeiros, é continuarem a pilhagem dos Estados e a exploração dos povos enquanto puderem. Tem servido ainda para alguns políticos se manterem no poder, alimentando a esperança junto dos povos de que melhores dias virão se continuarem a votar neles.
Na verdade, tal como previu Marx, do que se trata é da crise final do sistema capitalista, com o crescente aumento da contradição entre o carácter social da produção e o lucro privado até se tornar insolúvel.
Alguns, entre os quais os “socialistas” e sociais-democratas, que afirmam poder manter o capitalismo, embora de forma mitigada, afirmam que a crise deriva apenas de erros dos políticos, da ganância dos banqueiros e especuladores ou da falta de ideias dos dirigentes ou mecanismos que ainda falta resolver. No entanto, aquilo a que assistimos é ao agravamento permanente do nível de vida dos povos sem que esteja à vista qualquer esperança de melhoria. Dentro do sistema capitalista já nada mais há a esperar de bom.

NOTA FINAL:
O capitalismo há de acabar, mas só por si tal decorrerá muito lentamente e com imensos sacrifícios dos povos. Terá que ser empurrado. Devem ser combatidas as ilusões, quer daqueles que julgam o capitalismo reformável, quer daqueles que acham que quanto pior melhor, para o capitalismo cair de podre. O capitalismo tudo fará para vender cara a derrota. Por isso, quanto mais rápido os povos se libertarem desse sistema injusto e cruel, mais sacrifícios inúteis se poderão evitar.
Hoje, mais do que nunca, é necessário criar barreiras ao assalto final da barbárie capitalista, e inverter a situação, quer apresentando claramente outras soluções políticas, quer combatendo o obscurantismo pelo esclarecimento, quer mobilizando e organizando os povos.

(*) Os mitos criados pelas religiões cristãs têm muito peso no pensamento único capitalista e são avidamente apropriados por ele para facilitar a aceitação do sistema pelos mais crédulos.
Exemplos: “A pobreza é uma situação passageira da vida terrena.” “Sempre houve ricos e pobres.” “O rico será castigado no juízo final.” “Deve-se aguentar o sofrimento sem revolta para mais tarde ser recompensado."

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Socialismo, eu calculo!

A vida me reaquece... calculo

Vejo vida na vida, enfim!
Vejo meus pais, vejo amor deles...
Vejo vida, enfim vou calcular?
Vejo que calculo
Vejo vitória calculando
Vejo vitória calculando para a vida
Há esperança nas pessoas... Sim, há!!!
Vejo isso...
Sim Vejo
Sem, vingança, vejo vida, na luta!!!
Vejo que calculo... As ideias nunca morrem!!!
Mrx vive!!!
Lenin Vive!!!
Enfim, vejo, no coração dos indignados: esperança!!!
Socialismo, a flor da vida!!!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Face à dívida, vem a vontade de auditar!

Face à dívida, vem a vontade de auditar!

por Yorgos Mitralias [*]
Este texto é o prólogo da edição grega do livro "Façamos o inquérito à dívida! – Manual para as auditorias da dívida do Terceiro Mundo" (Menons l'enquête sur la Dette ! – Manuel pour les audits de la dette du Tiers Monde). A edição grega é acrescida por um longo e importante texto de Maria Lucia Fattorelli sobre as experiências de auditoria da dívida pública do Equador e do Brasil, assim como do texto de Eric Toussaint intitulado "Alguns fundamentos jurídicos da anulação dívida". 

A crise da dívida afectou o Terceiro Mundo desde 1982 e o cerco apertou-se fortemente em torno dos povos do Sul. A grande crise financeira que eclodiu no Norte no período de 2007-2008 atingiu também os povos da Europa. Trinta anos de luta contra a dívida do Sul permitiram produzir alternativas radicais e consistentes. Entre elas, o conceito de auditoria da dívida é uma ideia-força. Mas como lançar uma auditoria da dívida? 

Desde que a crise da dívida se deslocou maciçamente para o Norte, a Grécia está na primeira linha para contestar e denunciar em acções o pesadelo que é a dívida pública. Por isso, não podemos evocar qualquer precedente, aprender com qualquer experiência de auditoria realizada na União Europeia, ou, em geral no Norte desenvolvido. No entanto, não estamos começando do zero. As experiências e lições aprendidas com as lutas do Sul global estão ao nosso dispor. É fundamental aproveitar esta oportunidade para lançar, em nome também dos outros povos europeus, aquela que pode ser a mais decisiva das batalhas: a luta contra a dívida que devasta as sociedades e destrói vidas humanas, e constitui uma das mais garantidas ferramentas para tornar os ricos mais ricos e os pobres desumanamente mais pobres... 

Não há dúvida de que as diferenças entre as crises da dívida no Norte e no Sul são reais e nada insignificantes. No entanto, tanto ao Sul como ao Norte, os objectivos de uma verdadeira auditoria da dívida pública podem ser enunciados da seguinte forma: 

O primeiro objectivo de uma auditoria é esclarecer o passado, desfazer a teia da dívida, fio por fio, para reconstruir as sequências que levaram ao impasse actual. O que aconteceu com o dinheiro de tal empréstimo, em que condições o empréstimo foi concedido? Que juros foram pagos, a que taxa e que parte foi já reembolsada? Como é que a dívida cresceu, sem benefícios para o povo? Que caminhos seguiram os capitais? Para que foram usados? Quanto foi desviado, por quem e como? 

E ainda: Quem tomou emprestado e em nome de quem? Quem recebeu e qual foi o seu papel? Como se envolveu o Estado, quem decidiu, e a que titulo? Como as dívidas privadas se tornaram "públicas"? Quem iniciou projectos inadequados, quem pressionou nesse sentido, quem beneficiou? Foram cometidos delitos, mesmo crimes, com esse dinheiro? Por que não se estabelecem responsabilidades civis, penais e administrativas? 

Basta ter em mente essas questões para entender quão enorme é o campo de acção de uma auditoria da dívida pública, que não tem absolutamente nada a ver com a sua caricatura, que se reduz a uma simples verificação dos números feita por contabilistas de rotina. Não é por acaso que os defensores de auditorias argumentem a favor da necessidade da sua realização, invocando sempre duas necessidades básicas da sociedade: a transparência e o controlo democrático do estado e dos governantes pelos cidadãos. 

Trata-se de necessidades que se referem a direitos democráticos bastante elementares, reconhecidos pelo direito internacional, embora constantemente violados. O direito de controlo dos cidadãos sobre as acções daqueles que os governam, de obter informações sobre tudo o que diz respeito à sua gestão, seus objectivos e motivações são intrínsecos à própria democracia, dado que emanam do direito fundamental dos cidadãos de exercer o seu controlo sobre o poder e participar activamente nos assuntos públicos. 

O facto de o poder obstinadamente se recusar a realizar a auditoria da sua própria dívida e se opor á ideia de alguns intrusos "não-institucionais" se atreverem a realizá-la em seu lugar é indicativo de uma democracia (burguesa e neoliberal) mal formada. Uma democracia aleijada, que no entanto não deixa de nos bombardear mediaticamente com a sua retórica sobre a transparência. 

Esta necessidade constante de transparência nos negócios públicos adquire na era do neoliberalismo selvagem e da corrupção desenfreada – sem precedentes na história mundial – um enorme significado adicional: torna-se uma necessidade social e política vital! E é exactamente por esta razão que a transparência na acção é um pesadelo e, na prática, é exorcizada pelos poderosos do sistema, que não mostram a menor inclinação para tolerar testemunhas não convidadas ao seu interminável festim neoliberal. Por outras palavras, no actual período da mais vasta corrupção e de inúmeros escândalos financeiros, as liberdades e os direitos dos cidadãos, antes considerados como "primários", estão-se tornando artigos de luxo cada vez mais raros nas nossas sociedades, estreitamente vigiadas. A consequência directa é que o exercício dos direitos democráticos é muitas vezes visto pelos governos quase como uma declaração de guerra dos "de baixo" contra o sistema. E, naturalmente, é tratado como tal, da maneira mais repressiva... 

Seria sem dúvida suficiente a prática dos direitos democráticos "elementares", de facto extremamente políticos, para que a auditoria da dívida pública adquirisse uma dinâmica socialmente salutar e politicamente quase subversiva. No entanto, a utilidade profunda de uma auditoria independente da dívida pública não pode ser reduzida apenas à defesa da transparência e da democratização da sociedade. Ela vai muito além, pois toca em questões qualitativamente superiores e prepara o caminho para processos que poderiam ser extremamente perigosos para o poder estabelecido e potencialmente libertadores para a esmagadora maioria dos cidadãos! Com efeito, exigindo a abertura e a auditoria dos livros da dívida pública ou, ainda melhor, abrindo e auditando os livros, o movimento de cidadãos atreve-se a algo "impensável": entra na zona proibida, no santo dos santos do sistema capitalista, onde, por definição, não é tolerado nenhum intruso! 

Ao mesmo tempo, é confrontado directamente e sem intermediários, com o próprio sistema, porque nega o mais essencial dos seus poderes: a monopolização do direito de decidir, de tomar decisões sobre importantes questões financeiras, políticas, ambientais e sociais do país! Ou seja, de decidir o destino de todo o povo... Aqui, já não se trata apenas da transparência simples, ou mesmo da democratização da sociedade. Trata-se de algo muito mais profundo e essencial, da abertura de uma enorme brecha na parede da dominação dos poderosos. De uma brecha pela qual se torna possível vislumbrar, mesmo que vagamente, "outro mundo possível" de visões emancipadoras. 

Mais concretamente, a fim de alcançar esses objectivos e responder às expectativas da sociedade, uma auditoria cidadã da dívida pública é, de facto, forçada a ir muito mais longe do que o simples controle da legalidade dessa dívida. Esta poderosa ferramenta pode penetrar profundamente no interior dos campos cercados de poder capitalista, cometer o supremo "sacrilégio" de desafiar a vaca sagrada que é a propriedade privada, a avaliação do montante, condições, efeitos e os beneficiários do endividamento. E isso, realmente, obriga os movimentos sociais, nomeadamente os trabalhadores e todas as categorias de oprimidos, a desenvolver as suas prioridades alternativas com base na satisfação das necessidades humanas básicas. 

Por exemplo, criticar o desperdício de recursos para as Olimpíadas de Atenas, é mais do que expor e denunciar a corrupção generalizada que os acompanharam, ou atribuir responsabilidades à gorjeta distribuída tão ricamente. As críticas principais e mais relevantes a estes Jogos Olímpicos são feitas na base de uma visão totalmente diferente da realidade social e ambiental. A que conduz à adopção de prioridades sociais e económicas diametralmente opostas: ao invés de construir instalações desportivas faraónicas, as verbas deveriam ter sido utilizados para investimentos em saúde, educação, melhoria da qualidade dos serviços públicos... Ao invés da betonização extrema da capital, os investimentos maciços deveriam ter sido utilizados para combater as alterações climáticas [NR] , a fim de aliviar os cidadãos das cidades já sufocadas. Em suma, ao invés de grandes lucros para uma minoria, a satisfação das necessidades vitais da imensa maioria dos humanos... 

Esta visão social e ambiental constitui a base para que comece a emergir não só a necessidade, mas também as linhas gerais de uma outra organização social e económica, ou seja, outra sociedade! Quer dizer que, começando pelo "sacrilégio" de uma simples auditoria da dívida, que revelou aos olhos das pessoas até que ponto o rei (capitalista) que nos esmaga vai nu, o processo evolui rapidamente para uma abordagem de pedagogia colectiva e para recuperar o controle do seu destino "pelos de baixo", ampliando os seus horizontes ao ponto de tornar possível a contestação do poder "dos de cima", que se servem e atropelam os direitos dos outros. 

É óbvio que uma tal auditoria da dívida pública não pode ser alcançada sem a participação directa e activa dos "de baixo". Para que exista precisa da criação e desenvolvimento de um movimento social unitário, mas também democrático. No entanto, este movimento não pode e não deve ser reduzido a um papel residual, não pode ser confinado apenas a acompanhar o trabalho de alguns "especialistas" da comissão de auditoria, mesmo que sejam pessoas sinceras comprometidas, ao lado do povo. Ele deve participar no processo da auditoria da dívida, não só porque pode efectivamente ajudar com os seus conhecimentos específicos, os seus testemunhos e suas investigações, mas sobretudo porque é o único capaz de julgar e denunciar a dívida publica, com base nas suas próprias prioridades, suas necessidades e suas próprias visões emancipadoras. 

Um tal movimento radical para a auditoria da dívida não se pode contentar em ser meramente teórico. Para se tornar prático, ele deve (auto)organizar-se á imagem da própria sociedade moderna. E para isso, tem que ser como um grande rio para o qual convergem numerosas dinâmicas humanas. Não em nome de um qualquer pluralismo metafísico, mas porque, para ser eficaz, a auditoria da dívida deve estar relacionada com as necessidades das pessoas. Ninguém pode compreender melhor, apreciar, avaliar e defender as necessidades das mulheres do que o próprio movimento feminista; das necessidades dos agricultores do que os pequenos agricultores; dos jovens do que a mobilização da juventude; dos consumidores do que os consumidores organizados; ou do ambiente que os ambientalistas radicais...

Em suma, uma verdadeira auditoria da dívida pública requer a existência de um poderoso movimento no qual se encontrem todos aqueles que querem lutar contra esta dívida e contra as medidas de austeridade que ela implica, para além de todas as sensibilidades da população assalariada oprimida pelo capital. Ou seja, um movimento que, tendo em conta as múltiplas "identidades" dos trabalhadores de hoje (não só produtores mas também consumidores, utentes dos serviços públicos, vítimas de sexismo, violência doméstica e de discriminação de género, vítimas das mudanças climáticas [NR] e da poluição ambiental...) tente a sua síntese, para evitar que o movimento se fragmente, se dividida e perca a sua dinâmica emancipadora. 

Eis pois uma das razões que tornam imperativo o necessário encontro do movimento da auditoria da dívida pública com os do "Eu não pago" [1] . Esta necessidade não deriva apenas do facto de que ambos representam "os de baixo" e suas resistências. Ela decorre principalmente do facto de que se trata, em vários aspectos de movimentos sociais gémeos, com "filosofias" e dinâmicas semelhantes, e são condenados a se encontrar e enxertar-se um no outro se quiserem desenvolver o seu pleno potencial. Nenhum deles está limitado a uma crítica passiva do sistema capitalista, mas passam à transgressão da legalidade burguesa e capitalista, levantando a cabeça desafiadoramente contra os poderosos e o seu sistema. Ao fazerem isto, criam as condições para a ampliação e generalização da sua abordagem, popularizando a afirmação "Deve ser gratuita a saúde e os transportes, educação e electricidade, gás e creches para os assalariados, os imigrantes, as famílias monoparentais, os pensionistas pobres, os desempregado e os deixados à mercê deste sistema desumano. Sim, gratuitos, porque este não é um luxo extravagante, mas um direito de "os de baixo" e um dever "dos de acima". 

A reunião e a junção orgânica de tais movimentos sociais multiplica a sua credibilidade e a sua força, torna também possível uma situação muito importante: acostumar a sociedade "dos de baixo" á ideia de que não estão eternamente condenados a obedecer, resignados ás ordens de seus mestres. Que são não apenas capazes de contestar colectivamente estes mestres e o seu poder, mas que podem ser capazes de os derrubar e os substituir por um novo sistema de tenham decidido! 

O processo de auditoria da dívida pública pela sociedade mobilizada pode constituir uma grande oportunidade para os trabalhadores/as, pois lhes oferece uma oportunidade única de entrar em contacto e entender do "interior" questões que lhe são permanentemente inacessíveis e interditas, como o funcionamento do Estado burguês, a economia de mercado nacional e internacional e/ou as relações ou instituições internacionais. Ao desempenhar esse papel pedagógico, a grande escola da auditoria dos livros das contas do Estado pelos trabalhadores e suas organizações, contribuirão para a formação e o desenvolvimento da consciência de classe e anti-capitalista, uma vez que utiliza uma dinâmica semelhante à do controle operário. Uma dinâmica que permite armar os trabalhadores/as, e de um modo geral as vítimas do neoliberalismo, com a vontade de desafiar a tirania do capital e de tomar nas suas mãos o seu próprio destino. 

No entanto, estas dinâmicas gémeas dos dois controles não podem esconder diferenças importantes entre eles. Com efeito, enquanto o controle operário abre os livros do patrão, a auditoria da dívida pública passa a pente fino livros do Estado. Enquanto que um (controle operário) parte de baixo para ir para cima, o outro (a auditoria da dívida) inicia-se a partir do topo para descer depois. Por outras palavras, cada um termina onde começa o outro... 

Portanto, se o objectivo final de controle operário, que começa na empresa, é incentivar os trabalhadores a por a questão do seu controlo fora do seu local de trabalho, generalizando-o a toda a sociedade e ao Estado, o que acontece com a auditoria da dívida é exactamente o oposto: começando pelo Estado, ele incentiva o trabalhador/a – e todos os oprimidos – a generalizar a sua experiência e impor o controle nos seus locais de trabalho, à produção e onde quer que haja exploração capitalista. 

Trata-se, sem dúvida, de uma "inovação" que é o produto directo dos nossos tempos neoliberais, e que ainda não atraiu o interesse da esquerda e seus estados-maiores. Isto não é uma surpresa, porque o que nos falta, cruelmente, sobretudo no Norte global, são estas experiências práticas de auditoria da dívida pública da parte "dos de baixo", que poderiam justificar a pesquisa teórica tendo em vista a análise e a compreensão do "fenómeno". Resta no entanto, o objectivo imediato que é simplesmente o que deve ser feito para que a dinâmica da auditoria da dívida faça o percurso inverso daquele do "controle operário": "descer" para a base da sociedade, para os locais de trabalho, e estender-se a todo o processo de produção! 

Assim, enquanto se aguarda o veredicto da práxis "dos de baixo", um ponto está adquirido: face a um adversário de nível internacional, organizado desde há muito, coordenado e armado até aos dentes, e dada a internacionalização extrema da economia, bem como a natureza e a realidade "plurinacionais" da "dívida pública", a busca de parceiros, de aliados e companheiros de luta fora das fronteiras nacionais é uma condição de importância decisiva para o sucesso da auditoria. Por conseguinte, qualquer luta pela auditoria e anulação da dívida que não seja feita em nome e na base de interesses comuns (de classe) "dos de baixo" para além das fronteiras, está fadada ao fracasso. Em seguida, todo o confronto exclusivamente com credores estrangeiros, em nome de uma "resistência à ocupação estrangeira" do país, é, não só totalmente ineficaz, com também é uma luta verdadeiramente quimérica, jogando o jogo da santa aliança dos nossos tiranos nativos e estrangeiros. Á internacional capitalista tão real e tão tangível, nós não opomos o patriotismo, mas o internacionalismo na acção. 

A nossa esperança é que a dinâmica da auditoria se concretize e se transforme directamente num internacionalismo prático de combate. A razão é simples: os povos da Europa – mas certamente para além dela, através do Mediterrâneo, onde floresce a revolução árabe – estão todos no mesmo barco da dívida pública explosiva e de medidas de austeridade desumanas. Para estarem em condições de impor a solução que escolheram, devem sentir cada vez mais intensamente a necessidade de colaborar e unir forças contra o inimigo classe comum. Mais e mais pessoas estão convencidas de que não há salvação dentro de suas fronteiras nacionais, que é necessário, aqui e agora que os povos da Europa (de Leste e de Oeste) instaurem a sua União europeia, a união dos povos, a fim de se coordenarem e actuarem em conjunto, na base de um projecto estratégico comum. 

Em última análise, " os de cima" fazem muito bem o seu trabalho de sapa de minar as conquistas sociais e todas as formas de solidariedade, ao serviço dos credores ricos e das empresas multinacionais; já é tempo de que "os de baixo" façam o deles, o da união para a auditoria da dívida pública, tão largamente ilegítima...
Notas 

[1] O movimento "Eu não pago", que assumiu recentemente uma grande amplitude na Grécia, foi formado em torno da recusa em pagar as portagens exorbitantes em rodovias privatizadas no país. A grande novidade deste movimento muito popular e radical é que não se limita à denúncia passiva dos sucessivos aumentos nas portagens, mas pratica a desobediência activa em massa, forçando as barreiras. Ultimamente, o movimento "eu não pago" está prestes estender-se aos transportes urbanos de Salónica, no Norte da Grécia. 

[NR] Um falso problema, como já foi abundantemente demonstrado por resistir.info. Ver por exemplo Acerca da impostura global ou Aquecimento global: Uma impostura científica . A julgar pelo texto, o autor confunde o ambiente local com o clima. 


[*] Do Comité grego contra a dívida, membro da rede internacional do CADTM. 

O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/Face-a-la-dette-l-appetit-vient-en-auditant-1.html e em http://www.cadtm.org/Face-a-la-dette-l-appetit-vient-en . Tradução de Guilherme Coelho. 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .